O Real e o Cognoscitível
Ouço tiros, assobios monótonos, gatos revirando sacos de lixo. Penso: “A bicha que há em mim torna-se dia após dia mais velha e carrancuda”. Entretanto, ignoro as pré-condições que conduziram ou que me trouxeram tal tipo de pensamento sem sentido. Também, não me recordo das circunstâncias que me envolviam quando pensei tal disparate.
Assim, um todo se decompôs em palavras, tornando-se um novo símbolo. E qualquer outra pessoa recriaria uma nova realidade, completamente diferente da primeira.
Evitta não veio. Veio a pálida Rita. Amanhã virá Bellenice...
Ou não virá?
Quem saberá?
O tempo?
...Sim. Além de mim, condenado a me entender, apenas o tempo saberá.
Um olho negro surge lentamente bem à frente do meu rosto, desaparecendo segundos depois.
Pensando Em Z
Alguém me perguntou se eu sou médium; se acredito em discos-voadores, se acredito em Deus, sobre a origem do Homem, do Universo; sobre flores, sobre drogas, insetos, ovos, crianças, dança, sexo, música, andróides, poder e loucura...
Perguntam-me cada coisa (!)
Impressiona-me muito não as perguntas, mas, o porquê e a forma como me perguntam, e também, quem me pergunta tais coisas. E, ainda, como essa pessoa, ou aquela, se comportam diante dessa ou daquela outra resposta.
Odeio ter que dizer o que penso a respeito de “Y”, quando meus pensamentos estão em “Z”.
Meu Chimpanzé
O cigarro entre os lábios secos me guia no escuro até a cama no quarto. Os pés de Juka Porcalhão parecem dois macinhos de couve-flor.
Um cão late. Percebo pelo tom e ritmo do seu latido que ele está bêbado.
É Bob, o pastor alemão do meu vizinho ateu do 86, que mora com a mãe, uma senhora que se arrasta pelas ruas.
Quase todos na minha rua têm um cão, um gato. Tem até uns japoneses na casa da frente que criam pombas. Pensei em ter um...
Sei lá; um bicho que fosse pequeno, econômico, fofinho; alegre e silencioso, e que não mordesse as pessoas. Não achei nada similar no mercado. Por isso, continuo só; eu e meu chimpanzé.
Penúltimo Morteiro
Neal não se emenda mesmo (!)
Aliás, torna-se cada vez mais um tipo estranho. Sinto que há um pugilista se exercitando dentro do rapaz.
Fomos até o Bar do Angelo comprar cigarros. Ted esteve em todas em que o Tubarão Voador rodou pela sala.
Juka Porcalhão, porém, caiu de lado ainda no penúltimo morteiro.
O dia amanhece. Ouço, a algumas quadras, o ronco prolongado do motor do ônibus (Jorge sempre estica as marchas). Os primeiros pássaros ensaiam seus cantos. Bob agora parece mais afinado e feliz.
Sensações Patológicas
Meu estado de espírito não me ilude. Evito a guerra por que temo destruir tudo. Humor é guerra fria. Ironia é ódio. Esse é o Espírito da Coisa.
...A respeito do ódio que eu sinto por mim mesmo, e que a tantos diverte.
Correntes Enferrujadas
Ei, Neal! Pare de me olhar assim. Esse seu silêncio insetívoro me atordoa tanto (!) Esses seus movimentos inseguros ao lado da pia quando cozinho, a me perseguirem pela casa quando eu canto...
Pareces um fantasma do Nihilismo; um gancho, que a qualquer corrente que passar pelo centro da jaula se prenderá; e todos nós seremos arrastados.
Bill e os Papagaios
Observações esporádicas, desconexas, primárias, ou complexas; completas, fracionadas, patológicas; medíocres e interessantes.
Óbvias; quase reais (!)
Ei, Bill, que pensarias dessa papagaiada toda?
Manhã cheia de Sol, de movimentos, de sons...
Queria então ouvir a voz sensual da pequena Kid Abelha...
Mas, nada. Na casa ao lado ouve-se Carpenters. Barulho de talheres caindo ao chão, pratos na pia.
Fumo. Não sei quem sou. Bellenice não chega. Também, ainda nem comecei a preparar o peixe que lhe prometi. Dormia; agora toco violão; tomo Sol; curto inércia, relembrando os sonhos.
Juka Porcalhão me acordou bruscamente, quebrando em pedaços meus sonhos. De que me adiantam as experiências oníricas se delas não posso recordar-me?
Recordar. Ato solitário, intencional e emocional.
Juka e o 365 foram tocar em Santos. Neal Sedaka gargareja na pia, com voz suspeita, uma canção romântica. Tenho a ligeira impressão de que as lembranças mais antigas circulam como serpentes por todo meu corpo. Dificilmente sinto necessidade de falar com as pessoas. 99% dos assuntos que as ouço falando não me interessam nenhum pouco também.
Bola
Bola e a gang da Rua dos Abacateiros conversam na esquina. Eu passo e ninguém me percebe. A ponta é só minha. Quando saía de casa, dei de cara no portão com duas freiras. Notei que ambas usavam óculos, e tinham pelinhos brancos na nuca.
Um insano, com trejeitos de duende e olhar de peixe contaminado, arrastando um enorme galho de árvore, derrubado pelo vento da noite anterior, tenta, absorto, atravessar a Conselheiro, em frente a Magna. Por vezes, chega até o meio da rua, mas depois, avistando algum carro, a dezenas de metros, retorna assustado arrastando seu galho até a calçada. Penso sobre os desejos sexuais desses homens alienados. Observo os contornos femininos de sua bunda, e penso se, talvez, não seria ele um gay pré-histórico (?)
Os Vaga-lumes Vermelhos da Periferia de Moscou
Registro, em algum lugar da minha cabeça, todo ruído e imagem ao meu redor; principalmente aviões...
Aviões e trens. Duas coisas misteriosas e profundamente ligadas à minha infância.
Acendo o oitavo cigarro. Masturbo minha memória. Exercito um pouco a razão.
Assusta-me um pouco a ideia de que o mundo possa ser realmente da forma como eu imagino. Quisera, ao menos de vez em quando, me enganar.
O Menino Que Se Transformou Em Um Elefante
Não existe nada anormal. Apenas a mim mesmo posso fazer afirmações sobre a realidade. Aos outros, apenas sugiro. Odeio, entretanto, pessoas que nada afirmam, e que buscam o tempo todo as minhas opiniões. Que descubram o que é a vida sob seus próprios prismas (!) O meu já é sufocante por demais...
Já não estou mais gripado. Voltei ao álcool; dobrei o cigarro.
Segundo Juka Porcalhão, se esses cigarrinhos verdes engordassem já teríamos todos explodido.
O dia amanhece novamente. Há Sol; vozes animadas. Decidi parar de fumar. Bellenice...
...Não. Desta vez não me tornarei tão óbvio.