Ratones






Não, senhor; sim, senhor



Intrusos


Ontem de manhã travei um duelo acirrado com um gigantesco rato de bueiro, que, entrando pela janela dos fundos, invadira minha casa. Armado com uma, vassoura, cassei o bicho, que corria, escondendo-se debaixo dos pesados móveis. Agachado, olhando sob os móveis, por vezes sentia-me comovido vendo sua carinha assustada e esfolada. Imaginava como um demônio que ele pudesse estar pensando “Xi...O cara! Estou perdido”. Por isso gostaria que ele soubesse falar, e pedisse logo desculpas e fosse embora para bem longe. Mas não, ele insistia em ficar ali, me olhando com aquela carinha anônima e amassada de rato. Darwin estava mesmo certo; a fera era horrível, e não havia nada que eu pudesse fazer. Por isso, em momento algum me senti um monstro. Com a vassoura, escoltei o bicho cuidadosamente até o portão. Mas, na hora de colocá-lo para fora, percebi que minhas duas vizinhas, as gracinhas do 94, Dona Nenê e a Sra. Violeta, conversavam alegremente sobre como bordar panos de prato. Logo, estavam falando sobre uma receita de lasanha, e quando me avistaram, não sei por que, sorriram como se fossem cegas, enquanto que o intruso permanecia junto aos meus pés, do lado de dentro, choramingando, agarrado às grades do portão. Olá, seu José! Que lindo dia, não? – Dona Nenê, apesar de evangélica, era a mais assanhada e puxava conversa. Achei que não seria o momento oportuno para atravessar com meu convidado para o outro lado da rua, pois ele tinha agora, além de alguns ferimentos superficiais no focinho, uma expressão rancorosa e repugnante, e equilibrava-se com algum sacrifício, e eu não queria de forma alguma que minha reputação caísse ainda mais naquela manhã. Então eu sorri à garota de amarelo e fita nos cabelos, enquanto escondia com os pés o mouse dentro da casinha do hidrômetro. Ao fechar a portinhola, tive a impressão de que o bichinho chorava e rezava um Pai-Nosso Eu me sentia, a contragosto, um descendente de Hitler. Divertia-me muito ficar imaginando a cara das vizinhas, caso o bicho escapasse dali e resolvesse cair no mundo.


Na cozinha, preparando o almoço, arrepiava-me a idéia do monstrinho retornar pelo corredor e novamente entrar em casa. Voltei até o portão, e vi que o bichinho dormia sossegado com o narizinho ensangüentado encostado na parede. As vizinhas já haviam entrado. Arregaçando as mangas, pensei, é agora. Mas, ao primeiro sinal da minha presença, num último gesto, o bicho soltou um grunhido agudo e saltou em minha direção como um samurai alucinado. Gritei, maldito! E recuei dois passos, colocando-me novamente em posição de combate com a vassoura, mas o bicho acabou por desfalecer. Mais tarde, preparei-lhe um pomposo funeral na Rua da Linha, com direito a algumas flores e, velas, muita fumaça.


Ching Ling e o Careca agitado apareceram em casa hoje de manhã. Forneci-lhes um cigarro, e eles foram embora num fusca, fazer umas entregas em Mauá.


Manhã fria e úmida. Vou para o Departamento. Encontro-me agora a dois milímetros do próximo sonho. Olhos vítreos de significados já superados seguem atentos meus movimentos, prontos a chutarem (ou devorariam?) a primeira idéia que cair da minha cabeça sobre a mesa.




Queria poder urinar nesse seu mundo podre, oh, Bella Estrela.
Penso: Bellenice também falha...
Dois dias depois. Ces’t la vie!


Precipitara-me na conclusão. Bellenice chegou bêbada, acompanhada, como não poderia deixar de ser, da implacável Evitta.


Foram duas noites e dois dias ótimos, na companhia da doce Bellenice.


Imundas mãos pequenas.


Estou bem travado, tri-travado, tetravado. Penso em átomos. Um cachorro late sufocadamente, imitando um Snoopy. Lembro-me de um ursinho de pano, de cor esverdeada e já bem sujo, se afogando entre as minhas pernas nas águas mornas de uma velha banheira. Estou a caçar moscas, das quais arranco as asas e as ponho para passear, na cabeça do ursinho peludo, transformado em ilha. Penso que Rita pode chegar derepente e me pregar uma, daquelas que só eu poderia prever. Não.


Corro, ouvindo trens velozes dentro de túneis. Um grilo? Um helicóptero? Não; apenas um duelo de cães covardes.


Big Mama dorme como um anjo. Ela é ótima. 02h30, vou até o fogão e reacendo a ponta. Evitta é uma alucinação, Bellenice um novo amor. Rita, uma incógnita, acenando-me sem voz da parte central do passado. Eu, um crime sem perdão.


Estou armado. Recordo-me que estive de plantão o dia inteiro com um dente inflamado. Várias pedras, cafés, baseados.


Ao cair da noite, cujo céu já não me chama mais para pintar, deliciei-me pintando de rosa e lilás um par de sapatilhas de Bellenice.


Juka Porcalhão mantém-se ausente. Neal, provocante como um garoto sem pique. Ted e Margarida fizeram as pazes. Ted toca. Eu já nem sei quem toca; como toco? Por quê? Não sei... Ora como um idiota, ora como um rei.


Amor e Neurose. Solte o barco no mar. Alguém gostaria de um belo botão de rosa? A imprevisibilidade. Ponto pacífico. As brincadeiras. O corpo, o sorriso. Nossa! Quantas estrelas em seus cabelos!


Manhã fria e úmida. Saída de plantão, dois bases. Converso com o velho Bruxão Voska Bomik numa padaria decadente no bairro do Bom Retiro. Falamos por quase duas horas sobre amor e neurose. Voska é um ótimo psicólogo, mas um adolescente em matéria de amor. Insetos, insetos, como helicópteros; insetos e mais insetos. Monstros novamente. Grilos, moscas, baratas, pernilongos. Ted já se foi. Perguntou-me sobre a possibilidade de formarmos novamente a banda, Os Drivolóids? Não. Não sei; agora me dedico à Família Monstro também.


Suicido-me a cada segundo. A mente parece flutuar, o coração dispara. Penso em silenciá-lo com um tiro. Não. Enrolo outro Tubarão Voador; mais café, mais pedras... Penso que estou adormecendo; uma alucinação entra e senta-se na cadeira, ao lado da cama. Erva daninha. Oh, Linhas Malditas que não posso mais escrevê-las, porque agora a vós estou ligado, como Caim estava a Abel.


Duas semanas é tempo suficiente para que a rosa de um novo amor nasça em mim. Ao término de um mês já surgem os primeiros espinhos. Talvez se o símbolo do amor fosse uma outra flor, um lírio, por exemplo, o processo seria diferente (?) Quisera eu que o amor fosse algum tipo de erva daninha, que pudesse brotar em meu peito sem a minha intervenção cirúrgica. Perdi a caneta preta. Tudo bem, continuemos por ora com a verde. Vocês gostam de verde?