Ching-Ling e seus ascetas vieram me ver.
Queimamos uma tora. Estou agora um pouco mais distante de tudo. Vozes na casa ao lado me assustam. Saindo à porta, olhando um pouco mais para a esquerda, vejo minha vizinha se movimentando distraidamente em sua área de serviço, localizada nos fundos da casa, num nível mais elevado de onde me encontro. Vejo de relance, por cima do muro, apenas os seus cabelos ressecados, sua face pálida e de expressão triste, e o olhar azul e cansado. Recordo-me de tê-la cumprimentado na rua, na manhã anterior, já bem perto dos nossos portões.
As vozes cessam. Ocasionalmente constato que minha vizinha usa Comfort em suas roupas íntimas.
Penso se os deuses gregos usavam Neutrox também (?)
Muito Estranho...
Evitta parece ter medo de mim, do meu astral; mas nega isso quando a surpreendo, observando os quadros nas paredes. Na verdade, devo lhe parecer bem estranho. Às vezes eu mesmo me acho estranho.
Os Ratos
Não. Não tenho a mínima intenção de tocar nesse assunto, “Eu et Evitta.
Também procurarei evitar anotações que se refiram a ela.
Juka Porcalhão anda desconfiado que o mundo vai acabar.
O Demônio de Cara Limpa...
Tenho pensado muito em pessoas que gostam tanto de mim, e que há meses, outras até anos, não encontro...
Sinto-me mal. Queira que soubessem que não as esqueci, que nunca deixei de amá-las.
Acho que procuro muito pouco as pessoas, e que nunca consigo transmitir-lhes o que verdadeiramente sinto.
Crisis
Fui designado para um curso intensivo de “Técnicas de Guerrilha Urbana” na Academia de Polícia. Serão quatro horas diárias durante dois meses.
Não sei o que querem que eu aprenda dessa vez.
Anotações Neutras Sobre Monstros... Go!
A noite está fria, as ruas desertas. Estou ansioso. Espero que um certo “alguém” chegue logo.
Ouço Silent Love com a Nina Hagen. Nos prédios que observo do portão, algumas luzes ainda estão acesas. Penso: “Está tudo certo. Eu é que não sossego...”
Poderia continuar lendo Allan Poe, como fazia no ônibus, mas não, em casa sinto-me como uma fera enjaulada. Continuo impaciente. Fujo neuroticamente dos espelhos. Evito os quadros nas paredes. Enrolo outro baseado. Gostaria que tudo não passasse de um sonho...
Pato Donald
Sobre a mesa farta de “altas literaturas”, Penado, um Pato Donald estilizado de super-herói, com expressão cruel e os braços cruzados me fita. Gostaria de viajar pelo espaço a bordo da minha sala.
Muito me satisfaz, quando estou ansioso, fumar, ou tocar guitarra, como faço agora...
Toco distraidamente, procurando manter um ritmo no qual eu possa flutuar como uma pluma azul, ou descansar como um demônio.
Súbtamente volto a ouvir vozes. Perco o ritmo, que parece prosseguir por si só, ao movimento mecânico das mãos. A cinza solta-se como um bloco seco do cigarro, que queima num cinzeiro verde, já repleto de pontas.
Largo a guitarra e corro para o portão...
Acho que vou desmaiar (!)
Era Evitta!
Disse que estava indo com a mãe até Guarulhos, e que estava a fim de um cigarro. De pronto dei-lhe uma big point. Partiu, roubando-me um beijo.
Volto à guitarra. O cigarro no cinzeiro é agora um pequeno morto.
O ritmo torna-se indomável como um cavalo selvagem. Sinto dores em todos os ossos.
Não pretendo ficar anotando aqui fatos corriqueiros. Acredito ter um dia a dia dos mais idiotas e monótonos...
Neal provavelmente já sabe da existência deste caderno diário, e certamente espera ansioso que eu o termine logo, e mostre a todos “o novo caderno”.
Mas desta vez será diferente. Direi-lhe que desisti de continuar a escrevê-lo, e então começarei rapidamente um outro caderno, com coisas novas, completamente diferentes das que abordo aqui, apenas para distraí-lo. Facilita-me muito o fato de Neal ser a única pessoa a saber que estou escrevendo um novo volume, e, no entanto, ignorar sua forma e conteúdo.
Às vezes Neal faz com que eu me sinta como se fosse uma enorme teta.
Quando então sinto tonturas e milhões de insetos me sugam os poros.
Do Que Ri Juka Porcalhão?
A noite foi tenebrosa...
Às 2h43 da manhã. Juka Porcalhão dorme, ou apenas bodeia...
No quarto ao lado, dorme Isabella (após tomar um banho frio)
Juntamente com Isa está uma outra garota, também travada
As duas dormem
Após uma longa pausa, Juka Porcalhão solta um riso; um risinho irônico, que me deixa preocupado.
Juka Porcalhão estava mesmo certo. Parece que, ainda esta noite, veremos o Fim do Mundo. Só não sabemos como ele virá, se pelo homem, ou pelas forças naturais.
Ouço risadas femininas. Mulheres loucas, com dentes de louça, riem a alguns metros da minha janela. Venta. As árvores se agitam como débeis gigantes.
O mundo insiste em não acabar. Ainda há lugar para todos os segundos.
Tadeu Junky novamente se transformou em Ted Pig...
Ted Pig misteriosamente percorre de carro a “Zona Proibida”
O que buscam os olhos verdes e azedos de Ted Pig?
O que busca seu espírito?
Afastando-se em alta velocidade, esmago-me contra o vidro. Vejo o que meu corpo não queria
...E guardo o segredo no olhar.
In Fer Maria
Estou bêbado. Aliás, todos estamos
Tenho medo de terminar o que ainda nem começamos
Mas os fatos me alteram. Minhas ideias estavam certas.
A neurose se materializa
Os monstros descansam...
Não. Na verdade apenas fingem, alheios ao inferno.
Vou me inscrever num concurso do maior perdedor de caixas de fósforos
O cão late raivosamente
Na calçada, um homem geme
Juka Porcalhão toca algumas baladas na guitarra
Volume sobre a mesa. Cama sob o vol...
Havia perdido esses malditos manuscritos
A princípio, arrepiou-me a ideia de tê-los esquecido sobre a mesa
“Não! Quem os encontrou? Onde os deixei?
...Neal? Ted Pig??”
Até que finalmente os encontrei embaixo do travesseiro.
Judite e o Trem de Mulas
O êxito de sua missão desconcertou os assírios, e animou os judeus, que puderam, então, perseguir os inimigos dispersos e apossar-se de copiosos despojos; entre esses, a prataria de Helofernes, que coube a Judite
Para transportar seu quinhão, ela teve que carregar um trem de mulas
Com todo prazer, voltei a escrever. Reuni num único volume as coisas mais piradas relacionadas, de certa forma, à minha infância. Apesar de trabalhar com textos já acabados, consegui sutilmente introduzir nestes um “algo a mais”, dando-lhes assim uma fachada neo-beat.
O Ponto Pálido / O Homem Amarelo
Está inerte, ao lado do ponto. Não fita como antes o céu. Não solta as expressões faciais como antes. Nada ouve como antes. Nada fala que não esteja distante.
Meus músculos saltam. Não me recordo um mínimo sequer de toda inútil filosofia que rondou pela minha cabeça durante todo o dia
Vesti, a contragosto, meus sapatinhos com fivela. Passei o dia inteiro me sentindo um idiota com aquela arma na cinta
Mais tarde, andei de ônibus elétrico pela Rua Augusta lendo Proust, ouvindo sem querer conversas sobre os mais diversos assuntos; coisas que mortais como você e eu jamais poderiam imaginar sozinhos.
A noite desfilava lentamente no céu, carregando estrelas límpidas e silenciosas para o Oriente.
Conversamos sobre nossas experiências e comportamentos sexuais.
Agora, Juka Porcalhão ronca, trancado a sete chaves em seu mundo particular.