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A Lua agora é apenas um triste disco de sal de fruta Eno sobre a seda na sala. Perdi a caneta verde também. Quanto mais me encontro, mais me desligo das coisas materiais. 9h00 da manhã. Dia de Sol, pássaros, céu azul, com poucas nuvens. Bellenice foi embora. Acompanhei-a até o ponto final do ônibus elétrico na pracinha em Santa Therezinha. Voltei para casa me sentindo um menino gigante.

Há vários dias que não crio. Os Monstrinhos de Durepóxi me observam aflitos na estante. Também já há uns quatro dias que não encontro a turma, Juka, Neal, Ted... Entretanto, sinto-me bastante tranqüilo. Estou até conseguindo parar de fumar. Bellenice agora é meu único vício.

No fim de semana viajamos para Capivari, de onde esticamos até Rafard, e ficamos hospedados na casa de Big Mama, num quarto amplo, no alto de um sobrado, cheio de travesseiros, de casais, de estrelas, janelas abertas, calor, vento, Vênus a observar nossos corpos nus sobre um colchão estendido no chão. Acordei às 11h00 com um enorme cão lambendo minhas coxas. Todos os outros momentos são um segredo, que apenas eu e Bellenice sabemos...

Terça-feira. Rita me telefona. Diz que eu ando meio sumido e que está a fim de descer comigo até a praia com seu fusquinha 67. Saio pela tangente, disfarçando uma possível descortesia. “Não, eu não posso. Preciso dedetizar toda a casa neste fim de semana”. Rita não me seduz mais. Sua voz, outrora tão sexy, me parece agora algo forçada e fanhosa, como o lamento de uma velha roldana, descendo o balde dentro de um poço seco. Não adianta. Não me corrompo; meus sentimentos agora pertencem a Bellenice.

Não consigo mais fumar – 18 de outubro de 1984 – Bellenice trouxe todas as suas coisas. Estamos definitivamente juntos. Tem início um novo capítulo na história da minha vida. Para comemorar, como não poderia deixar de ser, fumamos um baseado. Penso num novo ser Zigmund Sanchez. Quem seria Zigmund Sanchez?

A dúvida geral: sobreviveria toda minha arte, após sensíveis transformações?

Seria ótimo se o dia fosse um pouco mais longo. Vejo à distância uma dupla de gaivotas desaparecendo atrás de uma nuvem cinzenta. Sinto ondas macias estourando de encontro ao meu rosto. Quadros? Sim, quadros! Música? Sim, música! Literatura? Sim, literatura. Monstrinhos? Sim, sim, monstrinhos! Novamente estou com as baterias carregadas. Gostaria então de destruir tudo e recomeçar, a partir daqui, toda minha arte.

09h30. Há Sol, barulho de gavetas e portas batendo na casa vizinha. O leite ferve e derrama sobre o fogão. Bellenice partiu atrasada para o serviço. Ouço pombos. Bowie canta “Dará tudo certo está noite”. Meu esqueleto se ajeita com as batidas do contrabaixo. Pela segunda vez estivemos com Tadeu Junky na casa de Bob Chantily. Os rapazes andam ensaiando ali. Uma teenage catatônica, com voz robotizada e sem vida, canta umas canções de FM. Não percebo qualquer expressão de prazer em seu rosto. Alheias a tudo, sentadas num puf de couro, Bellenice e Margarida conversam. Toco um pouco, mas o som está impraticável aos meus ouvidos, mesmo assim toco até o último acorde.

Ziggybel é o nome de um novo quadrinho. Pela manhã, tomamos café com um pedaço de pão doce da noite anterior. Bellenice não queria levantar-se, esparramava-se na cama como uma gata. Subimos, fomos até a praça em frente à igreja, e depois até o campo do Pinheiral no Mandaqui, onde brincamos com um cãozinho amarelo e pulguento, que batizamos de Gordon. À tarde conversamos e tomamos uma cerveja no Mad Waves. Compramos sementes de flores. Descobri meu lado Dom Diego; Carmem que se cuide...

É de noite. Estamos em uma quermesse perto do Largo Sagrado Coração de Jesus no Centro da cidade. Tadeu, Juka, Margarida, Bellenice. Bob Chantily puxa a Banda Última Hora. Tocam com As Esquizoides uma seleção de música de FM. Ouço agora num alto-falante, ou numa caixa acústica, não sei, alguém dizer, “...E agora com vocês, Divex!” Ô raios! Mas o que seria isso? Dívida Externa? O maldito Tadeu se transformou novamente em Ted Pig, e agora me mete nessa (!) Sim, eu sei, isso não vai dar certo. Subimos em um pequeno palco feito de madeira velha, improvisado atrás de um circo. Misteriosamente, Ted estava com o meu baixo, de modo que eu, não sei como, estou com sua guitarra nas mãos. Penso em gritar para Bellenice, mas tenho medo de reconhecer seu rosto em meio à pequena multidão de seres estranhos ao redor do palco. Todos querem  ver o que vem a ser isso afinal: Divex! Não sei como, mas a verdade é que Tadeu consegue tocar Jonhnny Garrard de trás pra frente no baixo. Enquanto que o som da craviola de Bob, por vezes derrama-se sobre o meu ser como uma cascata de pássaros e efeitos angelicais. Algumas pessoas mais idiotas começam a rir. Gostaria de ter uma bomba de efeito moral e atirá-la contra aquela multidão de Ignorants, mas apenas dois pássaros levantam voo e se afastam de mim. Juka Porcalhão permanece a maior parte do tempo em silêncio, olhando para os meus pés.

Agora Bellenice dorme. Um sol fraco penetra pela janela, e atravessando a cortina azul, cai como um véu sobre seus cabelos negros, esparramados sobre o travesseiro. Fico então pensando, o quão tolo devo ser, ou tão calmo devo estar, deitado displicentemente ao lado de tão cobiçado tesouro. Temo que em breve uma onda maior virá do alto mar, e a levará para sempre dos meus braços, que então se tornarão curtos demais para pegá-la; mas não o suficiente para impedir que eu continue a tocar aquela guitarra horripilante.

Bellenice está pensativa, contempla o céu como um pássaro à porta da gaiola. Meus olhos ficam molhados, e mais uma vez os lábios se unem, evitando que lágrimas percorram o meu rosto. Tenho medo de perdê-la de vez, num voo bonito e sem volta. A andorinha passeia entre as nuvens macias, enquanto o espantalho, com os olhos mudos, observa alguns meninos descalços, que sem saber por que sonham, brincam. Um olho vê, o outro sente.

É de tarde. Uma tarde perfeita, com roncos de caminhões e risos de crianças. Dois ou três pardais fazem festa num pequeno Ipê amarelo. Nada é tétrico. Tudo é calmo e eterno como há vários anos. Joguei as sementes no jardim, pintei, toquei violão, dormi, fumei alguns cigarros, e agora espero Bellenice chegar do serviço. E enquanto ela não vem, sinto o gosto de sua boca. Olho as nuvens, e abraço o ar quente da sala como se fosse seu corpo. Estou tranqüilo, como se viajasse através do tempo num tapete mágico. Tudo agora é diferente, inclusive o tempo. Fumar esses cigarros verdes não é um vício (em vão). Descobri novos passatempos, tão bons quanto toda arte, que até então sempre brotou desses meus momentos de fuga da realidade. Plantar flores, cuidar de um jardim, fazer bolos de fubá, é tudo tão prazeroso quanto pintar um quadro, ou montar um painel. Continuo no pique de pintar, só que estou sem material. Quanto à música, também é certo que pretendo repensar todo o esquema de criação. Tadeu Junky (um oportunista) me deixou um amplificador pifado, e levou o meu para casa de Bob, juntamente com a guitarra e um pedal. Assim, optei por montar em casa meu próprio Studio ZAE. Pretendo consertar o ampli, arranjar alguns gravadores de fita cassete, uma outra guita, ou um teclado, um chacoalho, e fazer sozinho minhas viagens sonoras.


Aproxima-se o feriado de Finados. Voltei a Capivari, onde costumo trocar algumas informações sobre “Arte e Beleza” com um jovem e talentoso pintor, chamado Francisco, ou simplesmente Kiko. A ideia era levar algumas telas para pintar, e também cigarros verdes e Coca-Cola desidratada. Assim, seria uma viagem inspiratória, com a Bellenice e tudo. Aproveitarei também para terminar de ler Jack Kerouac e ouvir um pouco de música sacra.

O Espírito da Coisa: molhar-se de vida; viver tudo o que ainda não vivi, de forma nova, para que germine um novo estilo artístico; uma arte mais rica em ingredientes. Descobrir novas formas, técnicas, novas cores, situações, sentimentos.

Preciso agora mergulhar no mundo normal, para poder criar novas “loucuras”. É preciso serenidade e lucidez para se chegar ao “complexo” na arte; e superar assim tudo o que já ficou velho em mim. O que não causa mais espanto. Não há vida onde não há novidade.

Edward Dement, 31/10/1984.