Não. Não sei de árvores; de céu, de nuvens, pássaros, estrelas. Não sei de nada.
Estou de plantão no Departamento. É domingo, ou melhor, agora, às 3h46, já é segunda. Estou numa sala vazia. Penso, olhando para os rádios HTs sobre a mesa: “É a mesa do Chefe (!)” –. É uma sala ampla. Alguns móveis antigos e escurecidos lhe dão um ar de cripta futurista. Além de mim, apenas uma plantinha empoeirada num vaso plástico parece respirar. Sobre um armário de aço, num rádio de pilhas, toca Dolores Duran. Uma certa nostalgia me invade. Observo desentendido os móveis, a mesa. Todos os colegas estão no dormitório. No corredor externo, vejo de relance a sombra de alguém deslizando e sumindo na parede bege. Ali é assim. Há quase 40 anos, dizem, o corredor dos mortos e desaparecidos. E eu estou lá.
Sinto-me como um espião fantasma. Após certificar-me de que tudo está calmo, caminho em direção à porta de vidro, que dá acesso a uma varanda panorâmica na sacada do 6º andar do velho prédio do DI.
Transponho a porta e debruço-me no largo parapeito de cimento e pedras e observo na Brigadeiro algumas viaturas do Batalhão Anti-Bombas manobrando. Eu sei, é a voz suave e grave de Kid Sato que logo salta mais alto num dos rádios, “Marte 01... Encerramento de talão”.
Retorno ao corredor e só então acendo um cigarro. Fumando a um canto na varanda, penso sobre o que farei logo mais à noite. Não; não sei de astros agora.
O que meus olhos vêem agora? Uma Deusa surge detrás de um astro, de trás da Lua!
Bellenice, assim rebatizada a jovem Isabella passou outra noite em casa. Ted Pig e Margarida também.
Tive um ótimo dia com Bellenice.
Passeamos ao sol pela manhã. Conversamos, rimos...
A tarde estive...
Acho que estou me apaixonando novamente. Evitta, entretanto, está sempre a um canto dos meus olhos, onde quer que eu me encontre.
Às vezes é como se minha vida fluísse de uma daquelas histórias dos gibis do Mickey. Então, por vezes, me sinto perdido, caminhando sem rumo pelas ruas da cidade, outras vezes, saltando de algum táxi em movimento.
De modo que eu tinha duas carteiras de identidade. Uma de gente, e outra de rato. E eu ia atrás do queijo.
Neurótico
É o caos, início, meio e fim. Estou de volta da Academia. Ted Pig fumou minha última ponta que estava dando sopa no cinzeiro. Aliás, os cinzeiros estão imundos, transbordando de bitucas, palitos, grampos, papéis...
Na verdade, toda casa, outrora Studio ZAE, está um caos. Eu estou um caos. Todos os meus amigos estão um caos. Apenas Bellenice pode me salvar, e salvar a si própria com esse relacionamento (do inferno que sutilmente a aprisiona do outro lado)
...Ouço agora sua voz rouca e doce... “Edmundoo!”
Sua voz me amansa, me mostra um caminho a seguir
Outro caminho?
Que, mesmo que cruel, por ser novo, será belo;
Você entende?
Sim; você pode entender. Tente, fumando um pouco mais. Isso. Fume mais!
E louco me encontro no centro disso tudo. Se é fácil? Sim! Facílimo!
Mas o que me aguarda o futuro?
A ponta-síntese tem gosto de desodorante. Um músculo mais excitado salta na coxa direita, como se a perna quisesse andar sozinha.
Desisto agora de escrever e vou tocar guitarra. Tchau. Daqui a pouco eu volto.
(Quase duas horas depois...)
(Quase duas horas depois...)
Voltei a me entender com o ritmo, tocando para Bellenice
Há alguns dias eu tocava mecanicamente, sem nenhum sentimento, mas apenas para enganar Ted Pig, que pedia música todos os dias, sem parar, babando como um cão raivoso. Penso que o que me motiva a fazer esses ritmos novos é o pavor que sinto de que Ted me ataque com suas unhas longas e brancas. Mas também imagino o que impulsionaria os solos de Ted Pig até aqui, nessa sala, nesse porão imundo, cheio de ratos e amor.
Eu era um estúpido...